A semana em que Wall Street celebrou a grelha partida de Washington terminou com o S&P 500 a ceder -2,68% para 7 376,86 pontos, o Nasdaq Composite a perder -3,37% para 24 579,42 e o Dow Jones a recuar -0,94% para 51 285,73, apesar de o dia seguinte às legislativas de meio mandato ter produzido ganhos de +3,03% no Dow e +1,58% no S&P. O petróleo desfez o argumento: o Brent caiu -16,9% para 97,76 dólares por barril e o WTI -13,23% para 90,34, enquanto o ouro subiu +4,63% para 4 079,5 dólares por onça. Na Ásia, o Nikkei 225 perdeu -9,42% e o TAIEX -14,82%, com o KOSPI a afundar -12,94%; na Europa, o DAX ficou praticamente inalterado (+0,01%) e o IBEX 35 avançou +3,84%. O rendimento da dívida norte-americana a 10 anos recuou 8 pontos base, para 4,86%.
A janela do evento: o voto e a transmissão aos setores
| Índice | Fecho anterior (30/10) | Fecho da semana (06/11) | Variação semanal |
|---|---|---|---|
| S&P 500 | 7 580,07 | 7 376,86 | -2,68% |
| Nasdaq Composite | 25 437 | 24 579,42 | -3,37% |
| Dow Jones Industrial Average | 51 770,31 | 51 285,73 | -0,94% |
| Russell 2000 | 2 811,84 | 2 754,11 | -2,05% |
| DAX | 25 818,21 | 25 820,36 | +0,01% |
| CAC 40 | 7 969,42 | 8 139 | +2,13% |
| Euro Stoxx 50 | 6 131,31 | 6 170,49 | +0,64% |
| FTSE 100 | 10 729,8 | 10 673,94 | -0,52% |
O evento foi claro e datado: a 3 de novembro, os democratas conquistaram simultaneamente o Senado e a Câmara dos Representantes, e Donald Trump aceitou o resultado, manifestando disponibilidade para cooperar com o partido vencedor. A 4 de novembro, os três grandes índices norte-americanos subiram em bloco — Dow +3,03%, S&P +1,58%, Nasdaq +1,44% —, com o mercado a ler um governo dividido como sinónimo de impasse legislativo e, portanto, de menor risco regulatório. A transmissão setorial foi imediata e seletiva: energia e indústria sob pressão, consumo discricionário e financeiras na liderança.
A segunda transmissão chegou no mesmo dia 4, quando o mercado começou a descontar uma inflexão política democrata em energia e saúde, ao mesmo tempo que passou a temer um apertar da regulação sobre centros de dados e custos de eletricidade. Ações ligadas a renováveis e à cobertura médica fortaleceram-se; após o resultado da eleição para governador do Texas, o mercado passou a antecipar restrições à expansão de centros de dados e os títulos do segmento recuaram. A terceira perna veio a 5 de novembro: o crude desceu com força num só dia e a energia consolidou-se como o maior derrotado pós-eleitoral, num movimento que coincidiu com a expectativa de que o novo equilíbrio político em Washington possa empurrar o Médio Oriente para um cessar-fogo.
Do lado macro, os indicadores não explicam a euforia nem a reversão. O ISM de serviços de outubro fixou-se em 54,5, abaixo dos 54,7 esperados e dos 54,9 anteriores; o PMI compósito da S&P Global caiu para 55,9, de 58,4; e o emprego privado da ADP somou 86 mil postos, acima dos 70 mil esperados. Traduzido: o ímpeto de crescimento perde marginalmente força, o mercado de trabalho mantém-se firme e nada disto alterou a recuperação do apetite ao risco desencadeada pelo voto. O que não sabemos é quanto do -2,68% semanal do S&P 500 corresponde a realização de mais-valias após o rali de 4 de novembro e quanto reflete a reprecificação do ciclo de investimento em inteligência artificial — a semana não permite separar as duas coisas.
Estados Unidos e Europa: o rali de um dia e a fatura do resto da semana
O mercado norte-americano viveu um contraste que os números resumem sem ambiguidade. Entre 30 de outubro e 6 de novembro, o S&P 500 perdeu -2,68%, o Nasdaq -3,37% e o Russell 2000 -2,05%, apesar do salto de 4 de novembro. A amplitude da nossa cobertura (capitalização igual ou superior a 3 mil milhões de dólares, mediana ponderada) mostra um mercado dividido ao meio: 327 empresas, 50,5% em alta, mediana de +0,07%. Ou seja, o índice caiu, mas a empresa mediana ficou praticamente parada — o dano concentrou-se nos grandes nomes de tecnologia e semicondutores.
E aí a lista é brutal. A Micron Technology perdeu -22,01% numa semana, com 780,3 mil milhões de dólares de capitalização; a Dell Technologies cedeu -22,57% (209 mil milhões); a AMD recuou -19,89% (223,6 mil milhões); a Vertiv caiu -21,35% (89,5 mil milhões) e a Ciena -24,11% (45,5 mil milhões). A ligação ao tema dos centros de dados é direta em Vertiv e Ciena, e o mercado leu a eleição texana como um sinal de travão à expansão de capacidade elétrica dedicada. Não temos, contudo, dados que permitam atribuir estas quedas exclusivamente a esse fator.
No pelotão dos vencedores, a IDEXX Laboratories subiu +22,65% (43,5 mil milhões), a Duolingo +21,91% (6,5 mil milhões), a Mosaic +21,59% (5,9 mil milhões), a Tapestry +14,2% (23,1 mil milhões) e a Clorox +13,59% (10,6 mil milhões). É uma cesta de perfil defensivo e de consumo, coerente com a rotação para fora da tecnologia, mas sem um catalisador comum identificável nos factos desta semana.
Na Europa, o retrato foi outro. O DAX fechou em 25 820,36, +0,01% — uma imobilidade que esconde 55,6% de empresas em alta na nossa cobertura alemã (45 nomes, mediana +0,62%). O CAC 40 ganhou +2,13% para 8 139, com 73,7% de títulos em alta em França (38 empresas, mediana +2,44%), e o IBEX 35 disparou +3,84% para 19 369,5. No agregado europeu, 61,4% das 220 empresas da cobertura subiram, com mediana de +1,13%. O FTSE 100 foi a exceção, com -0,52% para 10 673,94.
Os movimentos individuais alemães contam uma história de rotação violenta: a Lufthansa subiu +17,71% (9,7 mil milhões), a Heidelberg Materials +15,52% (30 mil milhões), a Fresenius +9,8% (29,2 mil milhões) e a Bayer +9,21% (48,7 mil milhões). Do lado oposto, a Infineon perdeu -9,5% (70,7 mil milhões), a Siemens Energy -6,95% (128,3 mil milhões) e a OHB -14,64% (4,4 mil milhões). Em França, o contraste foi ainda mais extremo: a Alstom afundou -29,6% (6,3 mil milhões) e a Legrand cedeu -5,63% (39,4 mil milhões), enquanto a BNP Paribas ganhou +7,16% (108,2 mil milhões), a LVMH +6,24% (218,6 mil milhões) e a Hermès +6,11% (155,6 mil milhões). O luxo e a banca francesa beneficiaram da leitura de menor risco regulatório nos EUA, que o mercado estendeu por simpatia ao consumo discricionário europeu.
Vencedores e perdedores: a semana em nomes
Nos Estados Unidos, a dispersão entre o melhor e o pior título da cobertura foi superior a 45 pontos percentuais. A IDEXX liderou com +22,65%, seguida de perto pela Duolingo (+21,91%) e pela Mosaic (+21,59%). No extremo oposto, a Ciena (-24,11%), a Dell (-22,57%) e a Micron (-22,01%) concentraram o grosso da destruição de valor, num total superior a mil mil milhões de dólares de capitalização combinada.
Na Ásia, a semana foi de dois mundos. A China subiu com força: o SSE Composite ganhou +0,82% para 3 628,44, o SZSE Component +3,26% para 11 186,88, o ChiNext +2,14% para 2 465,23 e o CSI 300 +3,21% para 4 113,41; a amplitude confirma-o, com 80,9% das 183 empresas da cobertura em alta e mediana de +3,91%. Hong Kong acompanhou com o Hang Seng a subir +5,27% para 24 522,95 e o Hang Seng China Enterprises +5,42% para 8 288,52. Entre os nomes chineses, a Sungrow disparou +25,55% (26,1 mil milhões), a Roborock +24,63% (4,8 mil milhões) e a NAURA +16,97% (67,9 mil milhões) — uma cesta de renováveis e equipamento de semicondutores que encaixa na expectativa de inflexão energética democrata.
O Japão e Taiwan foram o espelho inverso. O Nikkei 225 perdeu -9,42% para 57 329,13 e o TAIEX -14,82% para 38 513,33, com o KOSPI a cair -12,94% para 4 988,98. A amplitude japonesa é dramática: apenas 20,7% das 92 empresas da cobertura subiram, com mediana de -6,44%; em Taiwan, 16,7% de seis nomes, mediana de -8,55%. A SCREEN Holdings afundou -31,99% (13,4 mil milhões), a Murata -23,66% (78,8 mil milhões), a Tokyo Ohka Kogyo -20,38% (6,4 mil milhões) e a Advantest -19,54% (161,8 mil milhões). Em Taiwan, a Chroma ATE perdeu -31,34% (25,5 mil milhões), a YAGEO -25,5% (35,7 mil milhões) e a Delta Electronics -20,97% (133 mil milhões). A cadeia de fornecimento asiática de equipamento para semicondutores foi o epicentro do mau humor global.
Curiosamente, os fabricantes automóveis japoneses escaparam: a Toyota subiu +10,46% (254,6 mil milhões), a Honda +5,36% (44,1 mil milhões) e a Sony +6,72% (157,6 mil milhões). O iene depreciou-se +0,39% face ao dólar, para 158,425, o que ajuda a tradução de resultados, mas a divergência face ao colapso dos semicondutores japoneses sugere que o mercado está a distinguir entre exposição à IA e exposição ao consumo global.
Mercados cruzados: o petróleo dita a lei
A grande história da semana fora das ações foi o colapso do crude. O Brent perdeu -16,9% para 97,76 dólares por barril e o WTI -13,23% para 90,34, num movimento que coincidiu com a expectativa de cessar-fogo no Médio Oriente potenciada pelo novo equilíbrio político em Washington. O impacto setorial foi imediato: a BP caiu -11,63% (116,6 mil milhões) e a TotalEnergies -2,66% (197,3 mil milhões), num contexto em que a energia se consolidou como o pior setor pós-eleitoral nos EUA.
O ouro foi o beneficiário direto: +4,63% para 4 079,5 dólares por onça, com a prata a subir +5,84% para 51,97 e a platina +6,88% para 1 537. Os metais industriais seguiram o crude no sentido descendente — cobre -3,07% para 6,26 dólares por libra, alumínio -3,34%, zinco -5,05% para 3 818 dólares por tonelada —, enquanto o gás natural subiu +3,62% para 3 dólares por MMBtu e o carvão +3,54% para 152,3 dólares por tonelada. O potássio recuou -2,72% para 357,5 dólares por tonelada, apesar do salto de +21,59% da Mosaic, o que sugere que o movimento da ação teve mais de idiossincrático do que de fundamental.
Nas divisas, o dólar ganhou terreno face às moedas asiáticas e ao real: o USD/KRW subiu +1,92% para 1 363,65, o USD/BRL +2,06% para 5,4959, o USD/TWD +0,61% para 32,765 e o USD/JPY +0,39% para 158,425. O dólar recuou apenas face à rupia indiana (-1,32% para 93,895) e ao dólar de Hong Kong (-0,08% para 7,8396), num sinal de que o apetite ao risco regressou aos mercados emergentes asiáticos — o Nifty 50 subiu +6,44% para 24 536,6 e o Bovespa +0,34% para 168 498,45.
Nos juros, a história é de alívio na curva norte-americana: o 10 anos recuou 8 pontos base para 4,86%, o 5 anos 7 pontos para 4,64%, o 2 anos 5 pontos para 4,51% e o 30 anos 5 pontos para 5,26%, com o spread 10-2 a fixar-se em 35 pontos base. Para a narrativa de valorização, isto é relevante: uma descida de 8 pontos base na taxa de desconto alivia marginalmente o múltiplo implícito das ações de crescimento, mas não foi suficiente para compensar a compressão de resultados esperados no segmento de semicondutores. No exterior, o 10 anos britânico está em 5,16%, com variação diária de +1 ponto base, mensal de -28 e anual de +69; o alemão em 3,47%, com +1 ponto base no dia, -23 no mês e +59 no ano (dados de 30 de setembro); e o chinês em 1,59%, com -1 ponto base no dia, -11 no mês e -18 no ano.
O que vigiar: condições, não alvos
Para a semana seguinte, o quadro relevante é de condições. Primeiro, a amplitude: se o número de empresas em alta na cobertura norte-americana (50,5% esta semana) continuar a divergir do comportamento dos índices, o mercado está a fazer rotação e não a liquidar posições — e isso é uma condição diferente. Segundo, o petróleo: a queda de -16,9% no Brent em cinco sessões é o tipo de movimento que, se estabilizar acima dos 95 dólares, devolve alguma sustentação ao setor energético; se continuar a descer, o argumento do cessar-fogo ganha corpo e a energia continua a arrastar o S&P 500.
Terceiro, a cadeia asiática de semicondutores. O Nikkei a -9,42% e o TAIEX a -14,82% não são ruído; se a semana seguinte trouxer estabilização nos nomes de equipamento — SCREEN, Advantest, Tokyo Ohka —, o contágio para a tecnologia norte-americana alivia. Quarto, os juros: com o 10 anos em 4,86% e o spread 10-2 em 35 pontos base, a curva está estável, mas uma subida acima dos 5% voltaria a pressionar os múltiplos do crescimento. Quinto, a política: o mercado já descontou o impasse legislativo; o que ainda não descontou é a materialização da agenda democrata em energia e saúde, e é aí que os setores regulados podem surpreender, para cima ou para baixo.
Por fim, a geografia. A Europa aguentou-se melhor do que os EUA esta semana (DAX +0,01%, CAC +2,13%, IBEX +3,84%) e a China subiu com amplitude larga (80,9% em alta). Se esta rotação geográfica continuar, o argumento de que o rali de 4 de novembro foi um evento localizado nos EUA ganha força. Se reverter, foi apenas um dia de alívio num mercado que continua a vender tecnologia global.
Anexo de dados
| Ativo | Fecho anterior | Fecho da semana | Variação semanal |
|---|---|---|---|
| S&P 500 | 7 580,07 | 7 376,86 | -2,68% |
| Nasdaq Composite | 25 437 | 24 579,42 | -3,37% |
| Dow Jones | 51 770,31 | 51 285,73 | -0,94% |
| Russell 2000 | 2 811,84 | 2 754,11 | -2,05% |
| DAX | 25 818,21 | 25 820,36 | +0,01% |
| CAC 40 | 7 969,42 | 8 139 | +2,13% |
| Euro Stoxx 50 | 6 131,31 | 6 170,49 | +0,64% |
| IBEX 35 | 18 652,9 | 19 369,5 | +3,84% |
| FTSE 100 | 10 729,8 | 10 673,94 | -0,52% |
| Nikkei 225 | 63 290,11 | 57 329,13 | -9,42% |
| TAIEX | 45 211,83 | 38 513,33 | -14,82% |
| KOSPI | 5 730,74 | 4 988,98 | -12,94% |
| Hang Seng | 23 294,42 | 24 522,95 | +5,27% |
| CSI 300 | 3 985,5 | 4 113,41 | +3,21% |
| Nifty 50 | 23 053,1 | 24 536,6 | +6,44% |
| Bovespa | 167 922 | 168 498,45 | +0,34% |
| Brent (USD/bbl) | — | 97,76 | -16,9% |
| WTI (USD/bbl) | — | 90,34 | -13,23% |
| Ouro (USD/oz) | — | 4 079,5 | +4,63% |
| Prata (USD/oz) | — | 51,97 | +5,84% |
| Cobre (USD/lb) | — | 6,26 | -3,07% |
| Gás natural (USD/MMBtu) | — | 3 | +3,62% |
| USD/JPY | — | 158,425 | +0,39% |
| USD/CNY | — | 6,6648 | +0,06% |
| USD/BRL | — | 5,4959 | +2,06% |
| UST 10Y | — | 4,86% | -8 pb |
| UST 2Y | — | 4,51% | -5 pb |
| UST 30Y | — | 5,26% | -5 pb |
Este artigo é investigação de mercado e não constitui aconselhamento de investimento. As variações percentuais referem-se ao período de 30 de outubro a 6 de novembro de 2026, salvo indicação em contrário; as variações de juros de outros países são apresentadas nas unidades e prazos explicitamente indicados.
